Segunda-feira, Abril 22, 2013

Terça-feira, Janeiro 29, 2013

África

Quarta-feira, Janeiro 23, 2013

António Costa

"A situação a que chegámos não foi uma situação do acaso. A União Europeia financiou durante muitos anos Portugal para Portugal deixar de produzir; não foi só nas pescas, não foi só na agricultura, foi também na indústria, por ex. no têxtil. Nós fomos financiados para desmantelar o têxtil porque a Alemanha queria (a Alemanha e os outros países como a Alemanha) queriam que abríssemos os nossos mercados ao têxtil chinês basicamente porque ao abrir os mercados ao têxtil chinês eles exportavam os teares que produziam, para os chineses produzirem o têxtil que nós deixávamos de produzir. E portanto, esta ideia de que em Portugal houve aqui um conjunto de pessoas que resolveram viver dos subsídios e de não trabalhar e que viveram acima das suas possibilidades é uma mentira inaceitável. Nós orientámos os nossos investimentos públicos e privados em função das opções da União Europeia: em função dos fundos comunitários, em função dos subsídios que foram dados e em função do crédito que foi proporcionado. E portanto, houve um comportamento racional dos agentes económicos em função de uma política induzida pela União Europeia. Portanto não é aceitável agora dizer? podemos todos concluir e acho que devemos concluir que errámos, agora eu não aceito que esse erro seja um erro unilateral dos portugueses. Não, esse foi um erro do conjunto da União Europeia e a União Europeia fez essa opção porque a União Europeia entendeu que era altura de acabar com a sua própria indústria e ser simplesmente uma praça financeira. E é isso que estamos a pagar! A ideia de que os portugueses são responsáveis pela crise, porque andaram a viver acima das suas possibilidades, é um enorme embuste. Esta mentira só é ultrapassada por uma outra. A de que não há alternativa à austeridade, apresentada como um castigo justo, face a hábitos de consumo exagerados. Colossais fraudes. Nem os portugueses merecem castigo, nem a austeridade é inevitável. Quem viveu muito acima das suas possibilidades nas últimas décadas foi a classe política e os muitos que se alimentaram da enorme manjedoura que é o orçamento do estado. A administração central e local enxameou-se de milhares de "boys", criaram-se institutos inúteis, fundações fraudulentas e empresas municipais fantasma. A este regabofe juntou-se uma epidemia fatal que é a corrupção. Os exemplos sucederam-se. A Expo 98 transformou uma zona degradada numa nova cidade, gerou mais-valias urbanísticas milionárias, mas no final deu prejuízo. Foi ainda o Euro 2004, e a compra dos submarinos, com pagamento de luvas e corrupção provada, mas só na Alemanha. E foram as vigarices de Isaltino Morais, que nunca mais é preso. A que se juntam os casos de Duarte Lima, do BPN e do BPP, as parcerias público-privadas 16 e mais um rol interminável de crimes que depauperaram o erário público. Todos estes negócios e privilégios concedidos a um polvo que, com os seus tentáculos, se alimenta do dinheiro do povo têm responsáveis conhecidos. E têm como consequência os sacrifícios por que hoje passamos. Enquanto isto, os portugueses têm vivido muito abaixo do nível médio do europeu, não acima das suas possibilidades. Não devemos pois, enquanto povo, ter remorsos pelo estado das contas públicas. Devemos antes exigir a eliminação dos privilégios que nos arruínam. Há que renegociar as parcerias público--privadas, rever os juros da dívida pública, extinguir organismos... Restaure-se um mínimo de seriedade e poupar-se-ão milhões. Sem penalizar os cidadãos. Não é, assim, culpando e castigando o povo pelos erros da sua classe política que se resolve a crise. Resolve-se combatendo as suas causas, o regabofe e a corrupção. Esta sim, é a única alternativa séria à austeridade a que nos querem condenar e ao assalto fiscal que se anuncia."

Sábado, Janeiro 12, 2013

A República das putas

"Ainda deve haver por aí quem se lembre da Dona Branca, a autodenominada banqueira do povo. Para quem não sabe, era uma senhora que mais não fazia que comprar e vender dinheiro, fazê-lo circular, o que lhe era levado de novo era usado para pagar juros chorudos aos que já lá estavam, e cada vez havia mais. Ela arrecadava uma comissão, a coisa foi crescendo até que um dia PUM, foi tudo pelos ares. Recordo-me de uma Dona Arminda, que lavava as escadas lá do prédio, que perdeu as poupanças todas nestas andanças, ainda me lembro da senhora a chorar muito, faz-me lembrar o Portugal de hoje. E a Dona Branca inevitavelmente foi dar com os costados na prisão, coitada da senhora, estava muito avançada para a época, se fosse hoje davam-lhe um bónus de milhões, e teria uma posição de topo na Wall Street... (clic para ler o texto na íntegra)

Quinta-feira, Janeiro 10, 2013

"Salvem os homens"

.... Minha Amiga, se Você acha que Homem dá muito trabalho, case-se com uma Mulher e aí Você vai ver o que é Mau Humor e muitos problemas! O modo de vida, os novos costumes e o desrespeito à natureza tem afetado a sobrevivência de vários seres e entre os mais ameaçados está o macho. Tive apenas 1 exemplar em casa , que mantive com muito zelo e dedicação num casamento que durou 56 anos de muito amor e companheirismo , (1952-2008) mas, na verdade acredito que era ele quem também me mantinha firme no relacionamento. Portanto, por uma questão de auto-sobrevivência, lanço a campanha 'Salvem os Homens!' Tomem aqui os meus poucos conhecimentos em fisiologia da masculinidade a fim de que preservemos os raros e preciosos exemplares que ainda restam:
1. Habitat Homem não pode ser mantido em cativeiro. Se for engaiolado, fugirá ou morrerá por dentro. Deixe ele solto, não ligue para perturbar e não cobre nada dele. Não há corrente que os prenda e os que se submetem à jaula perdem o seu DNA. Você jamais terá a posse ou a propriedade de um homem , o que vai prendê-lo a você é uma linha frágil que precisa ser reforçada diariamente, com dedicação, atenção, carinho, amor e sexo.
2. Alimentação correta Ninguém vive de vento. Homem vive de carinho, comida, bebida e sexo. Dê-lhe em abundância. É coisa de homem, sim, e se ele não receber de você vai pegar de outra. Beijos matinais e um 'eu te amo' no café da manhã os mantém viçosos, felizes e realizados durante todo o dia. Um abraço diário é como a água para as samambaias. Não o deixe desidratar. Pelo menos uma vez por mês é necessário, senão obrigatório, servir um prato especial, fazer uma bela massagem. Portanto não se faça de dondoca preguiçosa e fresca. Homem não gosta disso. Ele precisa de companheira autêntica, forte e resolutiva.
3. Carinho Também faz parte de seu cardápio - homem mal tratado fica vulnerável a rapidamente interessar-se na rua por quem o trata melhor. Se você quer ter a fidelidade e dedicação de um companheiro completo, trate-o muito bem, caso contrário outra o fará e você só saberá quando não houver mais volta.
4. Respeite a natureza Você não suporta trabalho em casa? Cerveja ? Futebol? Pescaria? Amigos? Liberdade? Carros? Case-se com uma Mulher. Homens são folgados. Desarrumam tudo. São durões. Não gostam de telefones. Odeiam discutir a relação, Enfim, se quiser viver com um homem, prepare-se para isso.
5. Não anule sua origem O homem sempre foi o macho provedor da família, portanto é típico valorizar negócios, trabalho, dinheiro, finanças, investimentos, empreendimentos. Entenda tudo isso e apóie.
6. Cérebro masculino não é um mito Por insegurança, a maioria dos homens prefere não acreditar na existência do cérebro feminino. Por isso, procuram aquelas que fingem não possuí-lo (e algumas realmente não possuem! Então, agüente mais essa: mulher sem cérebro não é mulher, mas um mero objeto de decoração. Se você se cansou de colecionar amigos gays e homossexuais delicados, tente se relacionar com um homem de verdade. Alguns vão lhe mostrar que têm mais massa cinzenta do que você. Não fuja desses, aprenda com eles e cresça. E não se preocupe, ao contrário do que ocorre com as mulheres, a inteligência não funciona como repelente para os homens. Não faça sombra sobre ele.... Se você quiser ser uma grande mulher tenha um grande homem ao seu lado, nunca atrás. Assim, quando ele brilhar, você vai pegar um bronzeado. Porém, se ele estiver atrás, você vai levar um pé-na-bunda. Aceite: homens também têm luz própria e não dependem de nós para brilhar. A mulher sábia alimenta os potenciais do parceiro e os utiliza para motivar os próprios. Ela sabe que, preservando e cultivando o seu homem, ela estará salvando a si mesma. E também não queira ser HOMEM. Se coloque em seu lugar. Mulher que fica tomando atitudes de homens FICA SÓ. Você já viu alguma mulher milionária bem acompanhada? Só se estiver pagando para ter um homem ao seu lado. E se Você acha que Homem dá muito trabalho, case-se com uma Mulher e aí Você vai ver o que é Mau Humor! Só tem homem bom quem sabe fazê-lo ser bom! Eu fiz a minha parte, por isso meu casamento foi muito bom e consegui fazer o Fernando muito feliz até o último momento de um enfisema que o levou de mim. Eu fui uma grande mulher ao lado dele, sempre. Com carinho, Fernanda Montenegro

Sábado, Janeiro 05, 2013

um texto de Fernanda Câncio


Shakespeare, lembrava ontem Rui Pereira no Correio da Manhã, pôs a verdade na boca de um bobo. Podia também ter escrito que não há fúria na terra como a dos jornalistas gozados.
Sim, o sentido de humor faz muita falta. Se o usássemos mais veríamos como esta parábola do Artur nos faz o retrato, na sua genial redução ao absurdo. Com o seu "nós lá na ONU" e o seu discurso ouvido com reverência e sem contraditório, Artur faz alguma diferença de António (Borges) e o seu 'nós lá na Goldman Sachs" ou "nós lá no FMI", o "nós lá na troika" de Abebe (Selassie), ou o "nós lá no BCE" de Vítor (Gaspar)? Num caso é falso e nos outros é verdade, direis. Mas é o lugar de onde se fala que conta, ou o sentido que faz o que se diz, sua verdade e efeito?
Que o que o Artur dizia são disparates, ouvimos agora. Admitamos que sim; que é "o que as pessoas querem ouvir", como ontem o diretor do Diário Económico, António Costa, afirmava no Twitter. Mas há dois anos, quando os media clamavam pelo pedido de resgate para a seguir cantarem loas às "soluções" e ditados da troika, e logo depois, durante a campanha eleitoral, repetirem, sem a questionar, a conversa das "gorduras do Estado", era de quê, factos indesmentíveis, que ninguém queria ouvir, que se tratava? Onde estavam os jornalistas económicos quando PSD e CDS juravam que, uma vez no poder, bastaria "cortar no supérfluo" e nada de aumentar impostos, nada de fechar centros de saúde, escolas, racionalizar o Estado, tudo isso que o Governo anterior fazia, claro, por pura maldade? E onde estão agora, que até o Pedro admite ser a generalidade da despesa do Estado com prestações e serviços sociais, os reconhecimentos de terem sido levados ao engano, os mea culpa por não terem feito "o trabalho de casa"? Onde estão as acusações de burla e os apodos de burlão a quem vendeu a história falsa?
Difícil encontrar hoje um analista ou jornalista que não faça pouco das previsões do Vitor, não é? Mas quem não se recorda de ter sido apresentado como "um técnico brilhante e apolítico", "uma infalível máquina de contas", e a sua austeridade como "o único caminho"? E já não se lembram de como o Pedro era "um homem sério", "sensato", "bem falante" (!), que "não enganava ninguém", e o Álvaro um brilhante académico que trazia do Canadá a saída para todos os problemas?
Artur mentiu, arranjou uns cartões falsos, pretendeu ser autor de um estudo que não é dele e pertencer a uma organização prestigiada que, de resto, nada faz - para não variar da sua atitude geral - para se defender de tal reivindicação. E assim fez discursos, deu entrevistas e chegou à TV. Foi uma bela partida; se fosse a ele fazia disto tese académica ou reportagem, com o título "Como enganei os media portugueses, como são fáceis de enganar, e como enganam quem os consome". Às tantas ganha o Pulitzer. Merece. Até porque, ao contrário dos outros burlões, e tantos são, não nos fez mal algum.

Sábado, Dezembro 22, 2012






Sobre a Vírgula

Muito
bonita a campanha dos 100 anos da ABI
(Associação Brasileira de Imprensa).
Vírgula pode ser uma pausa... ou não.
Não
, espere.
Não espere..
Ela pode sumir com seu dinheiro.
23
,4.
2
,34.
Pode criar heróis..
Isso só, ele resolve.
Isso só ele resolve.
Ela pode ser a solução.
Vamos perder
, nada foi resolvido.
Vamos perder nada
, foi resolvido.
A vírgula muda uma opinião.
Não queremos saber.
Não
, queremos saber.
A vírgula pode condenar ou salvar.
Não tenha clemência!
Não
, tenha clemência!
Uma vírgula muda tudo.
ABI: 100 anos lutando para que ninguém mude uma vírgula da sua informação.



Detalhes Adicionais:

COLOQUE UMA VÍRGULA NA SEGUINTE FRASE:


SE O HOMEM SOUBESSE O VALOR QUE TEM A MULHER ANDARIA DE QUATRO À SUA PROCURA.

 


* Se você for mulher
, certamente colocou a vírgula depois de MULHER...
* Se você for homem, colocou a vírgula depois de TEM...

 PODE VER O EFEITO QUE UMA SIMPLES VÍRGULA PODE TER!!!!!! FANTÁSTICO!!!!!!!!!!!!!!!

Domingo, Dezembro 09, 2012

CARTA AO PRIMEIRO-MINISTRO DE PORTUGAL


Exmo. Senhor Primeiro Ministro
Hesitei muito em dirigir-lhe estas palavras, que mais não dão do que uma pálida ideia da onda de indignação que varre o país, de norte a sul, e de leste a oeste. Além do mais, não é meu costume nem vocação escrever coisas de cariz político, mais me inclinando para o pelouro cultural. Mas há momentos em que, mesmo que não vamos nós ao encontro da política, vem ela, irresistivelmente, ao nosso encontro. E, então, não há que fugir-lhe.
Para ser inteiramente franco, escrevo-lhe, não tanto por acreditar que vá ter em V. Exa. qualquer efeito – todo o vosso comportamento, neste primeiro ano de governo, traindo, inescrupulosamente, todas as promessas feitas em campanha eleitoral, não convida à esperança numa reviravolta! – mas, antes, para ficar de bem com a minha consciência. Tenho 82 anos e pouco me restará de vida, o que significa que, a mim, já pouco mal poderá infligir V. Exa. e o algum que me inflija será sempre de curta duração. É aquilo a que costumo chamar “as vantagens do túmulo” ou, se preferir, a coragem que dá a proximidade do túmulo. Tanto o que me dê como o que me tire será sempre de curta duração. Não será, pois, de mim que falo, mesmo quando use, na frase, o “odioso eu”, a que aludia Pascal.
Mas tenho, como disse, 82 anos, e, portanto, uma alongada e bem vivida experiência da velhice – da minha e da dos meus amigos e familiares. A velhice é um pouco – ou é muito – a experiência de uma contínua e ininterrupta perda de poderes. “Desistir é a derradeira tragédia”, disse um escritor pouco conhecido. Desistir é aquilo que vão fazendo, sem cessar, os que envelhecem. Desistir, palavra horrível. Estamos no verão, no momento em que escrevo isto, e acorrem-me as palavras tremendas de um grande poeta inglês do século XX (Eliot): “Um velho, num mês de secura”... A velhice, encarquilhando-se, no meio da desolação e da secura. É para isto que servem os poetas: para encontrarem, em poucas palavras, a medalha eficaz e definitiva para uma situação, uma visão, uma emoção ou uma ideia.
A velhice, Senhor Primeiro Ministro, é, com as dores que arrasta – as físicas, as emotivas e as morais – um período bem difícil de atravessar. Já alguém a definiu como o departamento dos doentes externos do Purgatório. E uma grande contista da Nova Zelândia, que dava pelo nome de Katherine Mansfield, com a afinada sensibilidade e sabedoria da vida, de que V. Exa. e o seu governo parecem ter défice, observou, num dos contos singulares do seu belíssimo livro intitulado The Garden Party: “O velho Sr. Neave achava-se demasiado velho para a primavera.” Ser velho é também isto: acharmos que a primavera já não é para nós, que não temos direito a ela, que estamos a mais, dentro dela... Já foi nossa, já, de certo modo, nos definiu. Hoje, não. Hoje, sentimos que já não interessamos, que, até, incomodamos.
Todo o discurso político de V. Exas., os do governo, todas as vossas decisões apontam na mesma direcção: mandar-nos para o cimo da montanha, embrulhados em metade de uma velha manta, à espera de que o urso lendário (ou o frio) venha tomar conta de nós. Cortam-nos tudo, o conforto, o direito de nos sentirmos, não digo amados (seria muito), mas, de algum modo, utilizáveis: sempre temos umas pitadas de sabedoria caseira a propiciar aos mais estouvados e impulsivos da nova casta que nos assola. Mas não. Pessoas, como eu, estiveram, até depois dos 65 anos, sem gastar um tostão ao Estado, com a sua saúde ou com a faltadela. Sempre, no entanto, descontando uma fatia pesada do seu salário, para uma ADSE, que talvez nos fosse útil, num período de necessidade, que se foi desejando longínquo. Chegado, já sobre o tarde, o momento de alguma necessidade, tudo nos é retirado, sem uma atenção, pequena que fosse, ao contrato anteriormente firmado. É quando mais necessitamos, para lutar contra a doença, contra a dor e contra o isolamento gradativamente crescente, que nos constituímos em alvo favorito do tiroteio fiscal: subsídios (que não passavam de uma forma de disfarçar a incompetência salarial), comparticipações nos custos da saúde, actualizações salariais – tudo pela borda fora. Incluindo, também, esse papel embaraçoso que é a Constituição, particularmente odiada por estes novos fundibulários. O que é preciso é salvar os ricos, os bancos, que andaram a brincar à Dona Branca com o nosso dinheiro e as empresas de tubarões, que enriquecem sem arriscar um cabelo, em simbiose sinistra com um Estado que dá o que não é dele e paga o que diz não ter, para que eles enriqueçam mais, passando a fruir o que também não é deles, porque até é nosso.
Já alguém, aludindo à mesma falta de sensibilidade de que V. Exa. dá provas, em relação à velhice e aos seus poderes decrescentes e mal apoiados, sugeriu, com humor ferino, que se atirassem os velhos e os reformados para asilos desguarnecidos , situados, de preferência, em andares altos de prédios muito altos: de um 14º andar, explicava, a desolação que se comtempla até passa por paisagem. V. Exa. e os do seu governo exibem uma sensibilidade muito, mas mesmo muito, neste gosto. V. Exas. transformam a velhice num crime punível pela medida grande. As políticas radicais de V. Exa, e do seu robôtico Ministro das Finanças - sim, porque a Troika informou que as políticas são vossas e não deles... – têm levado a isto: a uma total anestesia das antenas sociais ou simplesmente humanas, que caracterizam aqueles grandes políticos e estadistas que a História não confina a míseras notas de pé de página.
Falei da velhice porque é o pelouro que, de momento, tenho mais à mão. Mas o sofrimento devastador, que o fundamentalismo ideológico de V. Exa. está desencadear pelo país fora, afecta muito mais do que a fatia dos velhos e reformados. Jovens sem emprego e sem futuro à vista, homens e mulheres de todas as idades e de todos os caminhos da vida – tudo é queimado no altar ideológico onde arde a chama de um dogma cego à fria realidade dos factos e dos resultados. Dizia Joan Ruddock não acreditar que radicalismo e bom senso fossem incompatíveis. V. Exa. e o seu governo provam que o são: não há forma de conviverem pacificamente. Nisto, estou muito de acordo com a sensatez do antigo ministro conservador inglês, Francis Pym, que teve a ousadia de avisar a Primeira Ministra Margaret Thatcher (uma expoente do extremismo neoliberal), nestes termos: “Extremismo e conservantismo são termos contraditórios”. Pym pagou, é claro, a factura: se a memória me não engana, foi o primeiro membro do primeiro governo de Thatcher a ser despedido, sem apelo nem agravo. A “conservadora” Margaret Thatcher – como o “conservador” Passos Coelho – quis misturar água com azeite, isto é, conservantismo e extremismo. Claro que não dá.
Alguém observava que os americanos ficavam muito admirados quando se sabiam odiados. É possível que, no governo e no partido a que V. Exa. preside, a maior parte dos seus constituintes não se aperceba bem (ou, apercebendo-se, não compreenda), de que lavra, no país, um grande incêndio de ressentimento e ódio. Darei a V. Exa. – e com isto termino – uma pista para um bom entendimento do que se está a passar. Atribuíram-se ao Papa Gregório VII estas palavras: ”Eu amei a justiça e odiei a iniquidade: por isso, morro no exílio.” Uma grande parte da população portuguesa, hoje, sente-se exilada no seu próprio país, pelo delito de pedir mais justiça e mais equidade. Tanto uma como outra se fazem, cada dia, mais invisíveis. Há nisto, é claro, um perigo.
De V. Exa., atentamente,
Eugénio Lisboa

Quinta-feira, Novembro 29, 2012

Já leram o memorando da troika?

Já leram o memorando de entendimento com a troika, assinado por Portugal em Maio de 2011? Eu li, e em pé de página deixo o link para quem o quiser consultar, na sua tradução oficial. São 35 páginas, escritas num português desagradável e tecnocrático, que têm servido a este governo para justificar tudo. Ainda ontem, com descaramento, um dirigente do PSD dizia que "este não era o Orçamento do PSD, mas sim da troika"! Ai sim? Então eu proponho a todos um breve exercício de leitura. Tentem descobrir, lendo o memorando, onde é que lá estão escritas as 4 medidas fundamentais pelas quais este governo vai entrar para história de Portugal! Sim, tentem descobrir onde é que lá está escrito que se deve lançar uma sobretaxa no subsídio de Natal de todos os portugueses (decidida e executada em 2011); cortar os subsídios aos funcionários públicos e pensionistas (decidido e executado em 2012); alterar as contribuições para a TSU (anunciada e depois retirada em Setembro); ou mexer nas taxas e nos escalões do IRS, incluindo nova sobretaxa (anunciados no Orçamento para 2013), e definidos pelo próprio ministro das Finanças como "um aumento enorme de impostos"? Sim, tentem descobrir onde estão escritas estas 4 nefastas medidas e verão que não estão lá, em lado nenhum. Ao contrário do que este Governo proclama, estas 4 medidas, as mais graves que o Governo tomou, não estão escritas no "memorando com a troika"! Portugal nunca se comprometeu com os seus credores a tomar estas 4 medidas! Elas foram, única e exclusivamente, "iniciativas" do Governo de Passos Coelho, que julgava atingir com elas certos objectivos, esses sim acordados com a "troika". Porém, com as suas disparatadas soluções em 2011 e 2012, o Governo em vez de melhorar a situação piorou-a. Além de subir o IVA para vários sectores chave, ao lançar a sobretaxa e ao retirar os subsídios, o Governo expandiu a crise económica, e acabou com menos receita fiscal e um deficit maior do que tinha. Isto foi pura incompetência, e não o corolário de um "memorando de entendimento" onde não havia uma única linha que impusesse estes caminhos específicos! Mais grave ainda, o Governo de Passos e Gaspar, sem querer admitir a sua incúria, quer agora obrigar o país a engolir goela abaixo "um enorme aumento de impostos", dizendo que ele foi imposto pela "troika". Importa-se de repetir, senhor Gaspar? É capaz de me dizer onde é que está escrito no "memorando de entendimento" que em 2013 o IRS tem de subir 30 por cento, em média, para pagar a sua inépcia e a sua incompetência? Era bom que os portugueses aprendessem a não se deixar manipular desta forma primária. Foram as decisões erradas deste Governo que, por mais bem intencionadas que fossem, cavaram ainda mais o buraco onde já estávamos metidos. E estes senhores agora, para 2013, ainda querem cavar mais fundo o buraco, tentando de caminho deitar as culpas para a "troika"? Só me lembro da célebre frase de Luís Filipe Scolari: "e o burro sou eu?"
 Para ler o memorando vá a: http://www.portugal.gov.pt/media/371372/mou_pt_20110517.pdf
(texto de Domingos Amaral)

Sábado, Novembro 17, 2012

Angola levanta-se em defesa dos pobres portugueses

"Mário Soares não deu com a língua nos dentes nem escreveu um testamento sobre as violentas cargas policiais em frente à Assembleia Nacional, ruas limítrofes e Cais do Sodré. Dezenas de pessoas foram parar ao hospital, algumas gravemente feridas, devido às agressões dos agentes da polícia de choque. Francisco Louçã, o frade trapeiro da esquerda, não entrou no parlamento aos gritos, exigindo uma condenação contra o Governo Português por ter violado gravemente os direitos humanos nas ruas de Lisboa, a decrépita capital imperial. As máfias organizadas da política à portuguesa ficaram em silêncio face à brutalidade policial. Alguns até elogiaram os agentes, por terem atacado à bruta e atirado para o hospital dezenas de portugueses que o único crime que cometeram foi manifestar a sua indignação. Não têm trabalho nem pão e ainda por cima o seu governo tira-lhes o pouco que resta para dar aos banqueiros nacionais e da Troika. A RTP fez a cobertura dos acontecimentos mas escondeu parte da verdade. A SIC mostrou tudo mas sem filtro ou colou às imagens uma mensagem que deturpava a verdade dos factos. A TVI foi mais longe e às imagens associou palavras de um repórter que garantia aos telespectadores que os feridos mais graves foram feitos pelos próprios manifestantes! Os portugueses um dia destes regressam ao tempo em que os polícias davam tiros para o ar e acertavam nas partes baixas dos manifestantes. Os direitos humanos estão em perigo em Portugal e os angolanos não podem ficar em silêncio porque estamos a falar de um país que faz parte da CPLP. Se há reuniões de emergência por causa da situação política e humanitária na Guiné-Bissau, é hora de convocar todos os líderes da comunidade para avaliar a situação dos direitos humanos em Portugal. É chocante ver agentes da polícia bater num idoso no chão, até lhe partirem a cabeça. Ou em mulheres que estavam a passar no local errado à hora errada. Ninguém pode ficar indiferente ao sangue que na quarta-feira correu em Lisboa. Angola tem sido, sobretudo nos últimos dez anos, o baluarte da democracia e da liberdade na comunidade de países que falam a língua portuguesa. Num momento em que surgem visíveis sinais de violência sobre cidadãos indefesos, temos de cerrar fileiras e exigir que Portugal respeite os direitos humanos. A polícia portuguesa devia vir a Luanda fazer uma formação com a nossa Política de Intervenção Rápida. Quando antes das eleições algumas dezenas de jovens, manipulados por partidos políticos que ainda têm o cordão umbilical ligado às máfias políticas em Portugal, fizeram manifestações de rua, tudo acabou de uma forma civilizada. Choveram pedras sobre os agentes da polícia e os seus carros. Mas tudo se resolveu com a detenção dos desordeiros. Depois de identificados foram para casa e alguns tiveram de responder no Tribunal de Polícia. Não houve agressões selváticas. Os direitos humanos foram respeitados. Os dos manifestantes e os de todos os outros. Apesar da actuação profissional e civilizada dos agentes da Polícia Nacional, a RTP amplificou desalmadamente os acontecimentos. Dirigentes do Bloco de Esquerda exigiram a condenação do Executivo. A imprensa portuguesa entrou em delírio de aldrabices compulsivas. Houve um festival de ingerências nos assuntos internos de Angola. Em Lisboa aconteceu um verdadeiro massacre sobre manifestantes indignados e as máfias fingem que não percebem o que aconteceu. Até os nossos políticos, tão sensíveis à liberdade de expressão, estão em silêncio. O Mário Crespo não entrevista o Rafael Marques nem o Filomeno Vieira Lopes. O Justino Pinto de Andrade ficou calado só porque lhe deram a presidência do júri do prémio Maboque. Ninguém se levanta em defesa dos pobres portugueses que estão a morrer de fome." (in JORNAL DE ANGOLA)

Terça-feira, Novembro 06, 2012

Eles acre­di­tam em Deus e pro­me­tem go­ver­nar em seu no­me...

«Se a du­pla Rom­ney/Ryan ga­nhar a elei­ção pa­ra a Ca­sa Bran­ca em No­vem­bro pró­xi­mo, va­mos ter de re­pen­sar o mun­do co­mo se es­ti­vés­se­mos nos pri­mór­di­os do sé­cu­lo XX. Eles de­fen­dem que a «vi­o­la­ção le­gí­ti­ma» não de­ve dar di­rei­to a abor­tar, as­sim co­mo o in­ces­to ou a mal­for­ma­ção do fe­to tam­bém não da­rão; eles de­fen­dem que só os mai­o­res de 68 anos, do­en­tes, têm di­rei­to a ser tra­ta­dos pe­lo Es­ta­do, gra­tui­ta­men­te; eles de­fen­dem que a ta­xa má­xi­ma de IRS de­ve bai­xar de 35 pa­ra 26% e que, a par­tir de ren­di­men­tos de 200.000 dó­la­res anu­ais, a ta­xa de­ve ser ze­ro; eles de­fen­dem o aban­do­no da in­ves­ti­ga­ção e in­ves­ti­men­to nas ener­gi­as lim­pas e a apos­ta na in­ten­si­fi­ca­ção da ex­plo­ra­ção de pe­tró­leo, no Alas­ca, no off-sho­re e em qual­quer zo­na pro­te­gi­da, acom­pa­nha­da de in­cen­ti­vos fis­cais às pe­tro­lí­fe­ras (o mes­mo que o nos­so Ál­va­ro Pe­rei­ra, que se­pul­tou a in­dús­tria das ener­gi­as al­ter­na­ti­vas em tro­ca de apos­tar nos po­ços de pe­tró­leo nas tra­sei­ras do Mos­tei­ro de Al­co­ba­ça); eles de­fen­dem a per­se­gui­ção aos imi­gran­tes, o fim do se­gu­ro de saú­de pú­bli­co (o «Oba­ma­ca­re»), o fim das bol­sas de es­tu­do pa­ra os jo­vens sem di­nhei­ro pa­ra es­tu­dar, a des­re­gu­la­men­ta­ção to­tal do sis­te­ma fi­nan­cei­ro e da gran­de in­dús­tria, o di­rei­to ina­li­e­ná­vel de to­dos os ci­da­dãos an­da­rem ar­ma­dos e dis­pa­ra­rem li­vre­men­te, a pro­cla­ma­ção da ca­pi­tal de Is­ra­el em Je­ru­sa­lém, o re­for­ço das des­pe­sas mi­li­ta­res, e, de um mo­do ge­ral, a guer­ra aos ára­bes, rus­sos, chi­ne­ses e pre­tos. Eles acre­di­tam em Deus e pro­me­tem go­ver­nar em seu no­me, com um pro­gra­ma de ter­ro­ris­mo so­ci­al e de de­bo­che eco­nó­mi­co que vai fa­zer do idi­o­ta do Ge­or­ge W. Bush um ga­jo por­rei­ro.
Es­ta po­bre gen­te ame­ri­ca­na, for­ma­da po­li­ti­ca­men­te nos chás da Tup­perwa­re e nas mis­sas do­mi­ni­cais dos pre­ga­do­res lo­cais, é o que po­de­re­mos ter, nos pró­xi­mos anos, en­tre nós, os eu­ro­peus, e os chi­ne­ses, se eles ga­nha­rem as elei­ções de No­vem­bro. Os mes­mos, os mes­mís­si­mos im­be­cis que fi­ze­ram im­plo­dir a eco­no­mia mun­di­al em no­me da li­vre ini­ci­a­ti­va, pro­põem-se res­ga­tá-la com as mes­mas re­cei­tas le­va­das ao ex­tre­mo de um au­to-da-fé — e me­ta­de dos ame­ri­ca­nos acre­di­ta ne­les. Co­mo é que a Amé­ri­ca che­gou aqui? E co­mo é que nós va­mos atrás?» 
(Miguel Sousa Tavares)

Domingo, Agosto 26, 2012

As eleições em Angola vistas por José Eduardo Agualusa (in Jornal Público)

"José Eduardo dos Santos é um homem reservado e silencioso. Raras pessoas têm acesso à sua intimidade. Menos ainda o terão ouvido falar, em privado, sobre as suas ideias para o país ou a sua filosofia política. Paradoxalmente, foi esta opacidade que lhe permitiu alcançar o poder total em Angola.

Ao falecer em Moscovo, a 10 de Setembro de 1979, Agostinho Neto deixou atrás de si um país em chamas. Não era só Angola que vivia uma guerra civil. O MPLA também. Na cadeia de São Paulo, em Luanda, e em campos de concentração espalhados por diversos pontos do território angolano, antigos militantes e dirigentes do MPLA, que se haviam oposto à liderança de Neto - dos simpatizantes de Nito Alves aos intelectuais da Revolta Activa -, partilhavam celas e desditas com os jovens da Organização Comunista de Angola, OCA, mercenários portugueses, ingleses e americanos, militares congoleses e sul-africanos, e gente da UNITA e da FNLA.

Eduardo dos Santos não foi escolhido por representar a facção mais forte. Ao contrário: foi escolhido por ninguém saber ao certo quem ele apoiava, ou poderia vir a apoiar.

Ainda hoje a sua posição relativamente ao 27 de Maio de 1977, o evento mais dramático da história de Angola após a Independência, é motivo de acesa controvérsia. O certo é que, poucos meses após assumir o cargo, libertou a maior parte dos presos políticos e acabou com os fuzilamentos. Mais tarde viria a nomear antigos simpatizantes de Nito Alves, os chamados "fraccionistas", para altos cargos no aparelho de Estado.

Tal opacidade, que poderia sugerir fraqueza de princípios, depressa se revelou uma virtude no escorregadio e perigoso palco da política angolana. José Eduardo dos Santos aprendeu a jogar com o silêncio, tornando-se um hábil manipulador. Sobreviveu ao "fraccionismo", à queda do Muro de Berlim, e à longa Guerra Civil. Resta saber se sobreviverá, ou por quanto tempo sobreviverá, à "democracia", que afirma, agora, defender.

As eleições previstas para o próximo dia 31, as terceiras desde que Angola alcançou a independência, em 1975, servem, sobretudo, "para inglês ver". José Eduardo dos Santos está no poder há 33 anos sem jamais ter sido eleito. Nas primeiras eleições, em 1992, o candidato do MPLA deveria ter disputado uma segunda volta, contra o seu principal adversário, Jonas Savimbi. Este, porém, recusou o resultado, e a guerra recomeçou. Nas segundas eleições, em Setembro de 2008, o MPLA venceu o pleito para as legislativas, obtendo mais de 80% dos votos. Contudo, ao contrário do que estava previsto, nunca se chegaram a realizar eleições presidenciais. Uma nova Constituição foi então aprovada, instituindo um regime que exclui eleições presidenciais. O Presidente da República, com um poder imenso, passa a ser o chefe do partido mais votado.

José Eduardo dos Santos precisa de uma vitória credível nestas eleições, de forma a legitimar o seu poder para o exterior. O crescimento económico de Angola, ainda que pouco beneficie a esmagadora maioria da população, tem atraído investidores estrangeiros e melhorado a imagem do regime. As democracias ocidentais com interesses no país não parecem grandemente inquietas, de um ponto de vista moral, com a perpetuação de José Eduardo dos Santos no poder, ou com a corrupção generalizada. Contando que o regime se mantenha firme e coeso, assegurando um mínimo de estabilidade necessária aos bons negócios, está tudo bem. Ainda assim, preferiam ver o MPLA triunfar em eleições livres, justas e transparentes, ou que pelo menos parecessem livres, justas e transparentes. Seria uma forma de silenciar as escassas, mas sempre aborrecidas, vozes críticas e de apaziguar consciências.

A nova Constituição foi desenhada à medida das necessidades políticas, dos anseios e das idiossincracias de José Eduardo dos Santos. Em primeiro lugar, o Presidente não precisa de suar em público, de mergulhar diariamente no caos deselegante das multidões, e muito menos de se confrontar com adversários (um aborrecimento!), como aconteceria em eleições presidenciais. Em segundo lugar, para ser eleito, basta que o MPLA alcance mais votos do que os restantes partidos, independentemente da percentagem. Ou seja: não há necessidade de apostar tudo numa fraude maciça, como aconteceu nas eleições anteriores, com o risco de obter um resultado tão favorável, digamos, acima dos 80%, que se torne risível - e lá se iria, de novo, a credibilidade pretendida.

Angola mudou bastante desde as últimas eleições, em 2008. Algumas das mudanças são óbvias, como a novíssima marginal, ou os espelhados arranha-céus, muitos deles erguidos sobre os escombros de históricos, e belíssimos, casarões coloniais. É justo reconhecer que foram feitos avanços em alguns domínios, como a saúde pública e a reconstrução de estradas e caminhos-de-ferro. São mudanças importantes. Há outras, talvez menos óbvias, mas que poderão ter um peso muito maior no resultado das eleições - admitindo eleições justas e transparentes.

A mudança mais relevante tem a ver com a juventude. Os jovens de hoje, os quais representam a maioria da população angolana, já não se mostram tão traumatizados pela guerra civil quanto os respectivos pais. Estão também muito melhor informados e decididos a reinvidicar a parcela da riqueza do país a que têm direito. Dez anos após a morte em combate de Jonas Savimbi, no Leste de Angola, a juventude angolana está muito mais interessada no presente, e no futuro, do que no passado. Em 2008, o MPLA utilizou com sucesso o discurso do medo, insinuando que contestar as eleições era um primeiro passo para o recomeço da guerra. Os partidos da oposição apresentaram numerosas evidências de fraude. Optaram, todavia, por aceitar os miraculosos 82% do MPLA, pressionados pelas potências ocidentais, e também receosos de que o seu próprio eleitorado reagisse mal a uma posição mais crítica.

Hoje, jovens sem qualquer vínculo partidário, e com escassa memória da guerra, saem às ruas, em manifestações a favor da democracia. A maior parte destes revolucionários, ou "revus", como eles próprios se intitulam, estão ligados ao mundo através dos novos meios de comunicação, e assistiram, emocionados, ao derrube dos regimes totalitários nos países do Norte do continente.

O músico Luaty Beirão tem sido um dos rostos mais visíveis da contestação. Em Fevereiro de 2011 começou a circular na Internet uma convocatória apelando ao derrube do regime angolano. O documento, escrito numa linguagem muito ingénua, e assinado Agostinho Jonas Roberto dos Santos, apelava à realização de uma manifestação, a 7 de Março de 2011. O mais provável é que os "organizadores" desta manifestação se encontrassem longe do país. O apelo, contudo, foi retomado por outros jovens, em Angola. A 27 de Fevereiro, num concerto de rap, no Cine Atlântico, em Luanda, diante de alguns milhares de espectadores, Luaty Beirão, vestindo a pele de um dos seus heterónimos musicais, Brigadeiro Mata Frakusz, lançou-se numa violentíssima diatribe contra o Presidente angolano e outros dirigentes do regime. O vídeo desta improvisada demonstração de rebeldia, logo colocado no YouTube, testemunha um importante momento de viragem no combate pela democracia em Angola. A 7 de Março, Luaty Beirão seria preso, com mais 14 pessoas, naquela que foi a primeira manifestação de cidadãos independentes contra o regime, em território nacional, após o fim da guerra.

No dia anterior, sábado, o regime reuniu centenas de milhares de pessoas numa manifestação de "apoio à paz".

O pânico do regime, flagrante em diversas intervenções de dirigentes do MPLA, explica-se pelo ambiente que se vivia em todo o continente, na sequência das revoltas na Tunísia e Egipto. O facto de os jovens revolucionários não pertencerem a nenhum movimento organizado, nem terem lideranças explícitas, assustou e continua a assustar o regime, na medida em que dificulta o seu controlo. Igualmente inquietante, na perspectiva da segurança de Estado, é o facto de alguns destes jovens serem originários de famílias ligadas à nomenklatura. Luaty, por exemplo, é filho do engenheiro João Beirão, já falecido, fundador e primeiro curador da Fundação Eduardo dos Santos (Fesa), e um velho amigo do Presidente.

Os jovens quadros angolanos ligados à "grande família" (o partido no poder) tendem a ser rapidamente integrados no sistema. Muitos estudaram em países ocidentais e regressam a Luanda cheios de ideias generosas, decididos a bater-se contra a corrupção e por uma maior abertura democrática. Até há alguns anos, porém, quase todos fraquejavam, preferindo calar-se, após receberem o primeiro salário. O exemplo de Luaty, licenciado em Engenharia Electrotécnica em Plymouth, na Inglaterra, mostra que alguma coisa está a mudar no seio da própria classe dominante. A situação recorda os últimos anos do período colonial, cujo colapso poderia ter sido previsto pelo grande número de jovens da pequena burguesia urbana, de origem europeia, que se juntaram, na época, aos movimentos de libertação.

O surgimento da Convergência Ampla de Salvação de Angola-Coligação Eleitoral, CASA-CE, liderada por Abel Chivukuvuku, que se distinguiu durante largos anos como um dos mais corajosos, inteligentes e carismáticos dirigentes da UNITA, veio também complicar o xadrez político. A CASA-CE parece, à partida, cumprir um programa de divisão de votos do lado da oposição, de forma a facilitar a vitória do MPLA e a eleição de José Eduardo dos Santos. Esta tem sido, aliás, uma das críticas a Chivukuvuku feitas em surdina, ou abertamente, por importantes figuras da oposição civil. Porém, a CASA-CE tem vindo a congregar apoios não só de antigos militantes da UNITA, como também de personalidades anteriormente ligadas ao MPLA. É o caso do seu número dois, o almirante Gaspar Mendes de Carvalho (Miau), filho do escritor Agostinho Mendes de Carvalho (Uanhenga Xitu), personalidade histórica muitíssimo respeitada no seio da chamada "grande família".

A médio prazo, não para as presentes eleições, pode esperar-se que a CASA-CE se desenvolva e cresça, graças, sobretudo, aos inúmeros descontentes do MPLA.

Na "grande família", as correntes críticas queixam-se da corrupção generalizada e da forma como José Eduardo dos Santos vem distribuindo a riqueza do país pela sua "pequena família". Outra queixa frequente é o excesso de poder concentrado nas mãos do Presidente da República.

Num texto recente, publicado numa página que mantém na Internet, o antigo secretário-geral do MPLA e ex-primeiro ministro Marcolino Moco, desde há anos em ruptura aberta com José Eduardo dos Santos, critica os partidos que optam por silenciar algumas destas questões: "Nas circunstâncias destas eleições seria uma das questões fundamentais a esclarecer: como é que à filha de um presidente cessante e candidato ao mesmo tempo são atribuídos pela comunicação social do país e do mundo tantos teres e haveres de origem não explicada, nunca desmentidos, pelo contrário, tão ostensivamente exibidos interna e internacionalmente? Como não falar disso agora?"

Nos últimos meses tem havido manifestações de ex-militares e de antigos agentes da polícia política. Estes últimos ameaçam utilizar a informação e os conhecimentos adquiridos no exercício da profissão para desestabilizar o Estado.

Dois ex-militares, Alves Kamulingue e Isaías Kassule, estão desaparecidos desde o dia 27 de Maio. Terão sido presos, quando tentavam realizar um protesto contra a situação de abandono em que se encontram muitos dos antigos combatentes. A polícia, que reconheceu inicialmente ter detido os dois jovens, afirma agora desconhecer o seu paradeiro. Há quem assegure que foram fuzilados. Organizações não governamentais angolanas, como a Associação Omunga, a SOS-Habitat e a Associação Constituindo Cidadania, vêm tentando pressionar as autoridades para que libertem os jovens, ou informem sobre o seu destino.

Fala-se em eleições e logo alguém solta a palavra incómoda - fraude. A verdade é que o processo eleitoral começou torto. Primeiro, foi a disparatadíssima nomeação de Susana Inglês para a presidência da Comissão Nacional Eleitoral. A oposição manifestou-se imediatamente contra tal nomeação, por a entender ferida de irregularidades: Susana Inglês não é magistrada judicial, exigência prevista na lei. Além disso, foi dirigente da Organização da Mulher Angolana, OMA, instituição vinculada ao partido no poder. A nomeação de Susana Inglês acabou impugnada pelo Tribunal Supremo, num processo no qual o MPLA perdeu a face.

Organizações da sociedade civil e partidos da oposição também têm protestado, neste caso sem êxito algum, contra a forma como o MPLA utiliza os vastos recursos do Estado para financiar a sua luxuosa campanha eleitoral, este ano entregue ao publicitário baiano João Santana, conhecido no Brasil como o "marqueteiro de Lula". O partido no poder serve-se ainda da Televisão Pública de Angola, da Rádio Nacional e do oficialíssimo Jornal de Angola para exaltar as realizações do Governo, e atacar e denegrir, muitas vezes em termos brutais, os partidos e personalidades da oposição.

Marcolino Moco recorreu, no texto já referido, a uma metáfora desportiva para resumir a situação actual: "As eleições de 31 de Agosto são, desde logo, um jogo num plano inclinado, a favor do golpismo. Se se quisesse uma metáfora olímpica mais esclarecedora, diria que estamos perante um jogo em que há uma baliza de um metro de largura para o país marcar (não falo só da oposição político-partidária) e outra com, por aí, uns dez metros, para Sª Excelência o Senhor Presidente-candidato enfiar os seus estrondosos golos, calmamente."

Nada disto é novo. Aconteceu o mesmo nas eleições anteriores. O risco, desta vez, embora remoto, é que ocorram protestos, e que o regime possa perder o controlo da situação. Enquanto escrevo este texto, anunciam-se manifestações convocadas pelos principais partidos da oposição. Os jovens "revus", entre os quais Luaty Beirão, fizeram saber que também eles tencionam descer às ruas. O MPLA, por seu lado, afirmou que irá organizar gigantescas contramanifestações. À medida que se aproxima o fim do mês a tensão aumenta.

Numa página que animam na Internet, Central 7311, os "revus" lançaram no passado dia 20 uma campanha original. Começaram a fabricar e a distribuir uma espécie de cartões de identidade, que simulam o modelo nacional, aos quais chamaram cartões de "Cidadãos em Protesto Permanente": "Com esta campanha", explicam na referida página, "queremos recuperar os manos e manas que, não saindo do conforto das suas casas para arriscar ser agredidos por um kaenche ["gorila"] do [Bairro do] Palanca, se sentem agastados com alguma situação do seu quotidiano contra a qual tencionem protestar desta forma simbólica. Assim, seja qual for a situação que vos aflija, por mais ridícula que vos possa parecer, se querem insurgir-se contra ela dando a cara, teremos todo o prazer em criar-vos um BI adequado às vossas exigências. Terão apenas de nos enviar um email para dia7angola@gmail.com, com a vossa foto e dados para preenchimento: razão da adesão, ocupação, residência e província. Os dados dependem da vossa imaginação, mas a foto deve ser vossa e deve ver-se claramente a vossa cara."

Esta boa disposição e vontade de transformar contrasta com um certo desalento, cansaço, uma derrota da esperança, que também se sente em largas franjas da população angolana.

A capital angolana foi, desde sempre, uma soma de contradições. Europeia e africana. Rica e pobre. Urbana e camponesa. Moderna e tradicional. Arrojada e convencional. Progressista e reaccionária. Bela e horrível. Algumas destas contradições acentuaram-se nos últimos anos, em particular o abismo social. Os ricos vivem cada vez mais alto, nos modernos arranha-céus erguidos sobre a baía, ou cada vez mais à margem, em ilhas de prosperidade, nos condomínios de Talatona. Os pobres, esses, acotovelam-se nos imensos musseques que abraçam e se infiltram pelo asfalto. Luanda é uma cidade que ri e chora ao mesmo tempo.

O país está dividido entre os que defendem a situação, porque lucram com ela, por receio ou comodismo, uma oposição desorientada, um mar de gente exausta e um pequeno grupo de jovens aguerridos e idealistas, mas com limitada capacidade de mobilização.

A poucos dias do acto eleitoral a única certeza é o vencedor. O que acontecerá depois disso, ou até antes disso, depende da forma como a Comissão Nacional Eleitoral responder às inúmeras dúvidas que lhe têm sido colocadas. Depende também do quanto a UNITA e a CASA-CE estão dispostas a arriscar. Depende, finalmente, da mobilização dos jovens.

Em todo o caso estas são, provavelmente, as últimas eleições angolanas em que o vencedor é conhecido à partida. Não é ainda a democracia - mas talvez seja o fim de um tempo muito duro. Talvez Mamã Esperança já esteja, na curva do rio, ajeitando os seus panos, arrumando o seu toucado, preparando a sua entrada para uma nova estação."

Sexta-feira, Julho 13, 2012

a lista dos tachos

Lista de 29 assessores / adjuntos de Ministérios, todos de idade inferior a 30 anos, havendo 14 "especialistas" com idades entre os 24 e os 25 anos.
MINISTÉRIO DA DEFESA NACIONAL (2)
Cargo: Assessora
Nome: Ana Miguel Marques Neves dos Santos
Idade: 29 anos
Vencimento Mensal Bruto: 4.069,33 ?
Cargo: Adjunto
Nome: João Miguel Saraiva Annes
Idade:28 anos
Vencimento Mensal Bruto: 5.183,63 ?
MINISTÉRIO DOS NEGÓCIOS ESTRANGEIROS (1)
Cargo: Adjunto
Nome: Filipe Fernandes
Idade: 28 anos
Vencimento Mensal Bruto: 4.633,82 ?
MINISTÉRIO DAS FINANÇAS (4)
Cargo: Adjunto
Nome: Carlos Correia de Oliveira Vaz de Almeida
Idade: 26 anos
Vencimento Mensal Bruto: 4.069,33 ?
Cargo: Assessor
Nome: Bruno Miguel Ribeiro Escada
Idade: 29 anos
Vencimento Mensal Bruto: 4.854 ?
Cargo: Assessor
Nome: Filipe Gil França Abreu
Idade: 28 anos
Vencimento Mensal Bruto: 4.854 ?
Cargo: Adjunto
Nome: Nelson Rodrigo Rocha Gomes
Idade: 29 anos
Vencimento Mensal Bruto: 5.069,33 ?
MINISTÉRIO DA ADMINISTRAÇÃO INTERNA (2)
Cargo: Assessor
Nome: Jorge Afonso Moutinho Garcez Nogueira
Idade: 29 anos
Vencimento Mensal Bruto: 5.069,33 ?
Cargo: Assessor
Nome: André Manuel Santos Rodrigues Barbosa
Idade: 28 anos
Vencimento Mensal Bruto: 4.364,50 ?
MINISTRO ADJUNTO E DOS ASSUNTOS PARLAMENTARES (5)
Cargo: Especialista
Nome: Diogo Rolo Mendonça Noivo
Idade: 28 anos
Vencimento Mensal Bruto: 5.069,33 ?
Cargo: Adjunto
Nome: Ademar Vala Marques
Idade: 29 anos
Vencimento Mensal Bruto: 5.069,33 ?
Cargo: Especialista
Nome: Tatiana Filipa Abreu Lopes Canas da Silva Canas
Idade: 28 anos
Vencimento Mensal Bruto: 5.069,33 ?
Cargo: Especialista
Nome: Rita Ferreira Roquete Teles Branco Chaves
Idade: 27 anos
Vencimento Mensal Bruto: 5.069,33 ?
Cargo: Especialista
Nome: André Tiago Pardal da Silva
Idade: 29 anos
Vencimento Mensal Bruto: 5.069,33 ?
MINISTÉRIO DA ECONOMIA (8)
Cargo: Adjunta
Nome: Cláudia de Moura Alves Saavedra Pinto
Idade: 28 anos
Vencimento Mensal Bruto: 5.069,34 ?
Cargo: Especialista/Assessor
Nome: Tiago Lebres Moutinho
Idade: 28 anos
Vencimento Mensal Bruto: 5.069,34 ?
Cargo: Especialista/Assessor
Nome: João Miguel Cristóvão Baptista
Idade: 28 anos
Vencimento Mensal Bruto: 5.069,34 ?
Cargo: Especialista/Assessor
Nome: Tiago José de Oliveira Bolhão Páscoa
Idade: 27 anos
Vencimento Mensal Bruto: 5.069,34 ?
Cargo: Especialista/Assessor
Nome: André Filipe Abreu Regateiro
Idade: 29 anos
Vencimento Mensal Bruto: 5.069,34 ?
Cargo: Especialista/Assessor
Nome: Ana da Conceição Gracias Duarte
Idade: 25 anos
Vencimento Mensal Bruto: 5.069,34 ?
Cargo: Especialista/Assessor
Nome: David Emanuel de Carvalho Figueiredo Martins
Idade: 28 anos
Vencimento Mensal Bruto: 5.069,34 ?
Cargo: Especialista/Assessor
Nome: João Miguel Folgado Verol Marques
Idade: 24 anos
Vencimento Mensal Bruto: 5.069,34 ?
MINISTÉRIO DA AGRICULTURA (3)
Cargo: Especialista/Assessor
Nome: Joana Maria Enes da Silva Malheiro Novo
Idade: 25 anos
Vencimento Mensal Bruto: 5.069,33 ?
Cargo: Especialista/Assessor
Nome: Antero Silva
Idade: 27 anos
Vencimento Mensal Bruto: 5.069,33 ?
Cargo: Especialista
Nome: Tiago de Melo Sousa Martins Cartaxo
Idade: 28 anos
Vencimento Mensal Bruto: 3.069,33 ?
MINISTÉRIO DA SAÚDE (1)
Cargo: Adjunto
Nome: Tiago Menezes Moutinho Macieirinha
Idade: 29 anos
Vencimento Mensal Bruto: 5.069,37 ?
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E DA CIÊNCIA (2)
Cargo: Assessoria Técnica
Nome: Ana Isabel Barreira de Figueiredo
Idade: 29 anos
Vencimento Mensal Bruto: 4.198,80 ?
Cargo: Assessor
Nome: Ricardo Morgado
Idade: 24 anos
Vencimento Mensal Bruto: 4.505,46 ?
SECRETÁRIO DE ESTADO DA CULTURA (1)
Cargo: Colaboradora/Especialista
Nome: Filipa Martins
Idade: 28 anos
Vencimento Mensal Bruto: 2.950,00 ?